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O que a pandemia nos ensina sobre o necessário e o supérfluo?


Toda experiência de crise pode ser transformadora e sem dúvida nos impele para uma reflexão. A pausa necessária que a pandemia da Covid-19 nos impôs tem-nos feito pensar nas relações que mantínhamos com as coisas e no quanto o investimento no “ter” estava nos distanciando do “ser”.





A ideologia do consumismo vinha “consumindo” nossa alma. Como alerta o espírito Angélica na obra “Escrevendo Palavras, Modificando Conceitos”, pouco a pouco estávamos perdendo nossa conexão com o espiritual, presos à busca frenética do ter como forma de satisfação e procura da felicidade.



A autora espiritual ainda nos convida a pensar em como esse problema tem impactado nossos relacionamentos: “ao invés de buscarmos relacionamentos que visem a troca de afetos, desde de o escutar até o doar-se, meios estes onde se criam vínculos, a criatura interessa-se, em geral, por ter produtos para serem consumidos.” [1] O tempo que deveríamos investir em amizades genuínas, as quais exigem doação de amor e trocas profundas, está sendo menoscabado no clicar, postar, curtir e comprar, comprar, comprar...



Hoje compreendemos que as diversas relações superficiais que mantemos não nos bastam e que estarmos conectados no mundo virtual não significa necessariamente estarmos ligados genuinamente a alguém. Nossos muitos “amigos” virtuais podem ser, muitas vezes, apenas uma ilusão estranha que criamos para afastar o sentimento de solidão. Todos nós, que temos coração batendo dentro do peito e necessidade essencial de amarmos e sermos amados, precisamos de amizades genuínas. Queremos amigos de verdade, com quem possamos compartilhar o ser humano que somos, mesmo que pelas vias virtuais. É possível que essa crise venha a nos unir de maneiras mais verdadeiras, porque não aceitaremos nada menos que isso!



Consumimos, por dia, um volume muito significativo de informações desnecessárias que nos chegam tanto pelos meios de comunicação tradicionais quanto pelas redes sociais. Se nos imergimos muito a fundo nesse mar de informações, provavelmente abdicaremos de valioso tempo de convivência, reflexão e autoconsciência. Sem dúvida, está muito mais fácil hoje falar com um primo que mora em Nova York, mas estranhamente está cada vez mais difícil conversar com o filho adolescente no jantar, por estarmos todos com a cabeça enterrada em nossos smartphones ou absortos assistindo à última série da moda em um serviço de streaming.



Muitas vezes absortos em fatos que ocorrerem longe de nós, estamos, paradoxalmente, cada vez mais distantes dos seres próximos a quem amamos, bem como de nossas individualidades e de Deus. Estamos soterrando nossa intuição e nossa sensibilidade, muitas vezes esquecidos de nossa natureza espiritual e da realidade transcendente em que estamos mergulhados. Hammed, refletindo sobre a simplicidade na obra “Um modo de entender: uma nova forma de viver”, afirma que “muita coisa do mundo da erudição é tida como formação cultural, quando, na verdade, nada mais é do que entulho intelectual.” [2]



Nesses momentos de pandemia, podemos fazer o exercício de desligarmos um pouco os eletrônicos para buscarmos nos reconectar com aqueles com quem dividimos o lar. Silenciemos um pouco o ambiente doméstico dos ruídos eletrônicos, aliviemos a mente do excesso de informações. Respiremos para ouvirmos melhor. Ouçamos a voz das pessoas reais com quem compartilhamos a casa: as tagarelices e risadas animadas de nossos filhos, as histórias de nossos pais, os planos do nosso cônjuge... Ouçamos um pouco mais... o vento invadindo as frestas da janela, o cachorro latindo, uma composição de Chopin, como seus eternos Noturnos... Reservemos, ainda, tempo para ouvirmos a nós mesmos. Meditemos e oremos procurando escutar Deus no silencio de nossas almas. Não precisamos ter medo do silêncio; jamais estamos sozinhos, pois o Pai sempre está conosco.



Nesse fluxo virtuoso, poderemos aproveitar para ver e registrar na memória aqueles pequenos momentos genuínos de alegria. Nossa mente é uma poderosa máquina fotográfica! À noite, antes de o sono nos arrebatar por completo, vale “revelarmos” essas fotos e adormecermos com uma prece de gratidão!



O consumismo nos leva a focarmos apenas em nossas próprias necessidades - e nos afasta, portanto, das necessidades de nosso próximo. Distraídos em entulhar nossas casas de coisas supérfluas, nossos armários de roupas e pertences e nossas mentes de informações desnecessárias, ficamos alienados da vida espiritual e do dever de sermos caridosos.



No livro “Valores para Crescer”, dedicado a pais e educadores, o seguinte conceito de generosidade: “consiste em dar aquilo de que necessitamos, e não aquilo que nos sobra; se é do que nos sobra, poderíamos chamar isso de justiça” [3]. Os autores apresentam este conceito no capítulo “Simplicidade”, por considerarem a generosidade um dos elementos que integram esta virtude. Sem dúvida, uma vida mais simples gera riquezas intangíveis e disponibilidade de recursos materiais que passamos a empregar não só em favor do nosso bem estar, mas em benefício dos menos favorecidos, em um ato que é não apenas de justiça, mas também de amor.



Somos apenas depositários e administradores dos bens que Deus nos confiou e teremos, portanto, que prestar contas do emprego que lhes dermos. Viver com moderação é bem administrar esses recursos que Deus nos confiou, os quais não podem ser empregados apenas em nossa satisfação pessoal. Por meio da simplicidade, multiplicamos nosso potencial de doação!



Para aprofundamento dessas reflexões sobre o consumismo, recomendamos o vídeo “A história de Ugolin”, do médium Divaldo Franco. Nessa palestra, Divaldo nos leva a refletir sobre as aflições humanas e os impactos da indiferença social diante dos sofrimentos alheios. Narra a comovente história de Ugolin, personagem do livro “Estes dias tumultuosos”, de autoria do escritor Pierre van Paassen. A narrativa profunda nos faz repensar a necessidade de nos desdobrarmos cada vez mais em favor dos nossos irmãos em sofrimento.


É preciso irmos ao encontro das misérias ocultas. É preciso andarmos despertos. É preciso, em suma, resistirmos aos apelos consumistas para, dessa forma, estarmos mais livres para a prática de atos genuínos de amor.







[1] ANGÉLICA (espírito). Escrevendo Palavras, Modificando Conceito - Belo Horizonte, MG: Caravana de Luz Editora. 2011. (Cap. 34 O Vício do Consumismo)

[2] HAMMED. Um modo de entender: uma nova forma de viver- Catanduva, SP: Boa Nova Editora , 2004 (Cap. 13 Simplicidade)

[3] Esteve Pujol i Pons. Valores para crescer – São Paulo: SP, Ciranda Cultural 2009 (simplicidade pag 23)





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